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O Papel da Ultrassonografia na Medida da Gordura Subcutânea e Visceral e sua Correlação com a Esteatose Hepática

The role of ultrasonography in measurement of subcutaneous and visceral fat and its correlation with hepatic steatosis

Roberto Velloso Eifler

RESUMO

Objetivo: Avaliar as medidas ultrassonográficas da gordura subcutânea (GS) e da gordura visceral (GV) em comparação com o grau de esteatose hepática. Materiais e métodos: Foram avaliados 365 pacientes entre outubro de 2012 e janeiro de 2013. A GS e a GV foram medidas com transdutor convexo de 3 a 4 MHz colocado transversalmente 1 cm acima da cicatriz umbilical. Para a GV, considerou-se a distância entre a face interna do músculo reto abdominal e a parede posterior da aorta na linha média do abdome. A quantificação da esteatose hepática levou em consideração o aumento da ecogenicidade do fígado, a perda de definição das margens vasculares e o aumento da atenuação acústica. Resultados: 38% da amostra apresentou esteatose. Na detecção de esteatose moderada a grave, a área sob a curva ROC foi de 0,96 para mulheres e 0,99 para homens, indicando pontos de corte para a espessura da GV de 9 cm e de 10 cm respectivamente. Conclusão: Comprovou-se correlação entre esteatose e espessura da GV e foram sugeridos valores para a espessura da GV que permitem distinguir a normalidade da esteatose simples e do risco de esteato-hepatite.
UNITERMOS: Gordura abdominal, Esteatose, Síndrome metabólica, Ultrassonografia.

ABSTRACT

Objective: To assess the ultrasonographic measurement of subcutaneous and visceral fat in comparison with the grade of hepatic steatosis. Materials and Methods: From October 2012 to January 2013, 365 patients were evaluated. The subcutaneous fat thickness and the visceral fat thickness (VFT) were measured with a 3-4 MHz transducer transversely positioned 1 cm above the umbilical scar. For the visceral fat, the distance between the internal surface of the abdominal rectus muscle and the posterior aortic wall in the abdominal midline was considered. The quantification of hepatic steatosis was based on increased echogenicity of liver, blurring of vascular margins and increased acoustic attenuation. Results: 38% of total patients had steatosis. The area under the ROC curve was 0,96 for women and 0,99 for men, defining cut-off values for VFT of 9 cm for women and 10 cm for men, above which it is suggested moderate to severe steatosis. Conclusion: This study demonstrated correlation between steatosis and VFT and suggested thickness values that allow to distinguish normality from benign steatosis and from risk of steatohepatitis.
KEYWORDS:Abdominal fat, Steatosis, Metabolic syndrome, Ultrassonography.

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas e, especialmente, nos últimos anos vem ocorrendo um aumento crescente das taxas de obesidade nas populações dos países ocidentais, tanto desenvolvidos como emergentes, e tanto em crianças como em adultos (1). Já na década de 80, Reaven (2) observava que a obesidade estava muitas vezes associada a doenças como hipertensão arterial, hiperglicemia, dislipidemia e, principalmente, que essas alterações hemodinâmicas e metabólicas tinham um elo de ligação comum: a resistência à insulina. A partir de suas observações consolidou-se o conceito de síndrome metabólica (SM).

A prevalência da SM é estimada atualmente entre 20 a 25% da população geral, com índices crescentes (3). A importância do diagnóstico de SM se tornou evidente após a confirmação de sua relação com a doença cardiovascular. Indivíduos com SM apresentam risco duas a três maior de morbidade cardiovascular do que indivíduos sem a SM (4).

A doença hepática gordurosa não-alcoólica (DHGNA) é a manifestação hepática da síndrome metabólica. Ela abrange um amplo espectro de lesões hepáticas que vão da esteatose benigna até a esteato-hepatite não-alcoólica (EHNA), que apresenta alto risco de progressão para a cirrose e o carcinoma hepatocelular (5). A DHGNA pode ser diagnosticada por exames de imagem, tanto pela ultrassonografia (US) como pela tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM). Embora a US demonstre acurácia inferior à TC e à RM para a detecção de DHGNA, seu baixo custo e fácil acesso fazem dela a ferramenta diagnóstica mais utilizada para a avaliação inicial das alterações parenquimatosas hepáticas (6).

A US, do mesmo modo que a TC e a RM, não pode diferenciar esteatose de EHNA, o que ainda é privilégio do exame histopatológico (EH) (7). Mas a esteatose pode ser quantificada pela US em leve (grau 1), moderada (grau 2) e acentuada (grau 3), sendo que essa quantificação encontra muito boa correlação com a TC, a RM e o EH (8,9). A utilização da US na identificação da esteatose pode apresentar sensibilidade de 89% e especificidade de 93% segundo alguns autores (10) e, segundo outros (11), sensibilidade de até 94% e especificidade de até 100%.

Os critérios para quantificação dos graus de esteatose apresentam pequenas variações entre os diversos autores. A classificação de Saadeh et al (9) serve como um bom exemplo:

  • Grau 1 (Leve): Aumento difuso da ecogenicidade hepática com visualização normal dos vasos intra-hepáticos e do diafragma.
  • Grau 2 (Moderada): Borramento na visualização dos vasos intra-hepáticos e do diafragma.
  • Grau 3 (Acentuada): Não se visualizam vasos intra-hepáticos, diafragma e região posterior do fígado.

Trabalhos recentes, correlacionando US e EH, confirmam a US como uma importante ferramenta não-invasiva para a avaliação de DHGNA (12,13) e propõem-se a demonstrar que ecogenicidade hepática normal ou grau 1 excluem DHGNA histológica e afastam a necessidade de biópsia hepática (14,15).

Nos últimos anos, vem sendo atribuído à US outro importante papel na avaliação da SM além da quantificação da esteatose. Como já vimos, a obesidade está estreitamente ligada ao diagnóstico de SM. Por outro lado, começou-se a observar que a obesidade, usualmente avaliada por medidas antropométricas, tinha idiossincrasias que escapavam ao senso comum. Por exemplo, indivíduos com baixo índice de massa corporal podiam apresentar elevada incidência de alterações típicas da SM. Isso despertou a atenção para o fato de que não seria o excesso de gordura corporal total e sim a distribuição dessa gordura que estaria relacionada à resistência à insulina e, por consequência, à SM (3). Desde então têm sido bastante estudadas as relações da gordura subcutânea, glúteo-femoral e visceral com a ação da insulina e, presentemente, já se pode afirmar que pelo menos a associação da gordura visceral com os componentes da SM está bem estabelecida (16,17). Os exames de imagem são os métodos de eleição para avaliar e quantificar a gordura visceral. Já em 1983, Tokunaga et al estabeleciam critérios para a avaliação da gordura corporal por TC. Atualmente a TC é considerada o padrão-ouro para a avaliação da gordura intra-abdominal (16), mas na verdade trata-se um método de alto custo, pouco prático e que submete os pacientes à radiação ionizante. A RM também desenvolveu critérios para avaliar a gordura visceral com boa acurácia, mas está mais sujeita a artefatos que a TC e seu coeficiente de variação também é maior (18). As medidas antropométricas são os métodos mais utilizados na avaliação da adiposidade corporal; mostram-se, no entanto, incapazes de diferenciar a gordura visceral da subcutânea e apresentam variabilidade intra e interexaminador relativamente elevadas (19).

Contrastando com as desvantagens da TC, da RM e das medidas antropométricas, a US tem-se afirmado como um método simples, de baixo custo, sem risco de radiação e com reprodutibilidade e confiabilidade já comprovadas na quantificação da gordura visceral (20,21,22). A técnica ultrassonográfica consiste em medir a espessura da gordura abdominal subcutânea e visceral, separadamente, utilizando-se um transdutor de 3 a 4 MHz colocado um centímetro acima da cicatriz umbilical. Desde os trabalhos de Armellini et al (20), está demonstrado que a espessura do tecido adiposo visceral obtida com essa técnica tem boa correlação com a área desse mesmo tecido quantificada pela tomografia. Em 2002, Leite et al definiram os valores de 8 cm de espessura da gordura visceral para mulheres e 9 cm para homens como associados a maior risco cardiovascular (23). Em 2003, Ribeiro Filho et al propuseram o valor de 7 cm para o diagnóstico de obesidade visceral em mulheres (24). Em 2009, Diniz et al, analisando 50 pacientes, sem distinção de sexo, estabeleceram valores médios, com os respectivos desvios-padrão, de 2,64 cm ± 1,37 para a espessura da gordura subcutânea e 6,84 cm ± 2,38 para a espessura da gordura visceral (25).

Em virtude de trabalharmos com ultrassonografia em clínica gastroenterológica, esses trabalhos nos chamaram a atenção por sua originalidade, simplicidade e eficácia. Principalmente, porém, nos chamaram a atenção porque, apesar de mostrarem um caminho promissor, permaneceram em grande parte como experiências isoladas e sem seguimento. A conclusão a que chegamos é a de que se trata de mais um exemplo do que acontece hoje no campo da medicina: a compartimentalização do conhecimento. A avaliação da gordura visceral é de alto interesse para várias especialidades médicas, como a gastroenterologia, a hepatologia, a endocrinologia, a cardiologia e mais áreas voltadas para o estudo da obesidade e do metabolismo, mas não faz parte da rotina ultrassonográfica. Ultrassonografistas seguem protocolos corretos, os quais, no entanto, estão deixando de atender às necessidades específicas de um grupo cada vez maior de especialidades.

Nosso objetivo é dar continuidade ao trabalho desses pesquisadores, principalmente os brasileiros, como Leite et al. (23), Ribeiro Filho et al. (24) e Diniz et al. (25), que se preocuparam em definir valores normais e de risco para a espessura das gorduras subcutânea e visceral. Usaremos a correlação com o grau de esteatose determinado por US, cujo critério já está bem definido, para buscar determinar um ponto de corte que possa identificar indivíduos com maior risco para esteato-hepatite.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram examinados de forma consecutiva e aleatória 365 pacientes usuários de uma clínica especializada em gastroenterologia de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no período de 15/10/12 a 25/01/13, independentemente das queixas e sintomas. Só foram excluídos portadores de doenças crônicas como alcoolismo, cirrose, linfoma, insuficiência renal e pessoas submetidas a cirurgia bariátrica ou estética.

Todos os pacientes foram examinados por um ultrassonografista experiente que há dez anos pratica diariamente a quantificação da esteatose e que realizou diariamente a medida da gordura subcutânea e visceral durante dez meses antes de iniciar este trabalho. Não foi empregada a medida da gordura perirrenal em virtude de sua reprodutibilidade ainda controversa.

Os exames foram feitos em um mesmo aparelho de US, de marca Toshiba, modelo Nemio XG, com transdutor convexo de 3 a 4 MHz. Não se julgou necessário utilizar transdutor linear para a medida da gordura subcutânea, optando-se pela técnica de Radominsky et al (21), uma vez que as diferenças entre as medidas por transdutor convexo e transdutor linear mostraram-se insignificantes.

Os critérios para quantificação da esteatose seguiram a classificação de Saadeh et al (9), com a diferença de que, para a caracterização de esteatose leve (grau 1), deu-se mais valor à presença de pequenas áreas hipoecoicas focais no parênquima hepático, principalmente nas regiões periportal e perivesicular, do que à distinção entre a textura hepática e a textura da cortical do rim direito, distinção essa muito dependente da subjetividade e de uma textura renal idealmente padronizada. As áreas hipoecoicas focais são causadas por sistemas venosos independentes ou relativamente independentes do sistema portal (geralmente colecísticos ou parabiliares), que reduzem localizadamente a perfusão portal e, por consequência, determinam alterações metabólicas focais que geram áreas livres de acumulação de tecido adiposo (26).

As medidas da espessura da gordura subcutânea (GS) e da gordura visceral (GV) foram feitas com o paciente em decúbito dorsal, com elevação do braço direito, posicionando-se o transdutor convexo de 3 a 4 MHz transversalmente um centímetro acima da cicatriz umbilical, na linha média, em fase expiratória normal, sem exercer pressão com o transdutor sobre o abdome para não distorcer a medida (25). Considerou-se espessura da GS a distância, quantificada em centímetros, entre a pele e a superfície superior da linha alba, que é a rafe tendinosa que une as duas metades do músculo reto abdominal. Considerou-se espessura da GV a distância, quantificada em centímetros, entre a superfície inferior da linha alba e o plano da parede posterior da aorta (Figura 1). Convém observar que a linha alba muitas vezes é espessa, permitindo distinguir a superfície superior da inferior, e muitas vezes é delgada, aparecendo na imagem como um traço; nesse último caso o traço é considerado como suas superfícies superior e inferior para fins de medida. Geralmente há um acúmulo de gordura extraperitoneal na linha média, logo abaixo da linha alba, que aparece como uma imagem elipsoide e hipoecoica; essa gordura é incluída, para fins de medida, na espessura da gordura visceral. A aorta localiza-se usualmente à esquerda da linha média; tendo sido identificada sua imagem, traça-se uma linha horizontal que passa por sua parede posterior até a linha média, e é aí, no encontro dessa linha com a que desce da linha alba (primeiro caliper) que se coloca o segundo caliper para a medida da espessura da GV.

RESULTADOS

Foram examinados 365 pacientes, na faixa etária de 16 a 92 anos, com idade média de 52,9 anos e se fez uma correlação entre o sexo dos pacientes e a presença de esteatose (Tabela 1).

tabela1

Em torno de 38% da população examinada apresentou esteatose, não havendo diferença estatisticamente significativa entre homens e mulheres.
Partindo-se dos dados que mostram que a US pode apresentar sensibilidade e especificidade altas na identificação da esteatose (11), e que a ecogenicidade hepática normal praticamente exclui a DHGNA histológica (14,15), avaliou-se a espessura da gordura subcutânea (GS) e da gordura visceral (GV) das pessoas sem esteatose. Para as mulheres obteve-se GS de 2,51 cm ± 1,94 e para os homens GS de 2,14 cm ± 1,38 (P = 0,004; teste t de Student). A espessura da GV foi de 5,38 cm ± 2,74 para as mulheres e de 6,78 cm ± 2,66 para os homens (P <0,001 ;teste t de Student).

Pode-se constatar que a GS é em média 17 % mais espessa nas mulheres do que nos homens sem esteatose. Em contrapartida, A GV dos homens mostrou-se na média 26 % mais espessa do que nas mulheres sem esteatose. Tendo esse dado como referência, decidiu-se dar atenção especial à diferença entre os sexos ao quantificar a espessura da GS e da GV por grupos etários.

Sexo feminino:

Partindo de estudos que mostram que a obesidade apresenta seu maior pico entre 45 e 64 anos, estudou-se a amostragem das 149 mulheres sem esteatose até se chegar a um recorte definitivo de três distintos e mais homogêneos grupos etários (Tabela 2).

tabela2

A média da espessura da GV para todas as 149 mulheres sem esteatose foi de 5,38 cm ± 2,74. A espessura da GS não apresentou variação estatisticamente significativa entre os grupos etários nas mulheres sem esteatose.

As 85 mulheres com esteatose foram distribuídas de acordo com o grau de infiltração gordurosa (Tabela 3).

tabela3

 


A



(Figura 1 – A) Esquema das medidas da espessura das gorduras subcutânea e visceral. (B) 
Ultrassonografia com as medidas da espessura das gorduras subcutânea e visceral

Houve aumento progressivo e estatisticamente significativo da espessura da GV com o aumento do grau de esteatose nas mulheres. Já a espessura da GS não apresentou alterações relevantes entre os vários graus de esteatose.

Sexo masculino:

Assim como entre as mulheres, dividiu-se a amostragem de 131 pacientes do sexo masculino sem esteatose em três grupos etários (Tabela 4).

tabela4

Também não se demonstrou variação expressiva da espessura da GS entre os vários grupos etários masculinos sem esteatose. Quanto à GV, embora se encontre significado estatístico na variação de sua espessura entre os grupos etários, não se considera que tal variação seja clinicamente relevante.

A média da espessura da GV para todos os homens sem esteatose foi de 6,78 cm ± 2,66.

Os 55 homens com esteatose foram distribuídas de acordo com o grau de infiltração gordurosa (Tabela 5).

tabela5

Da mesma forma que entre as mulheres, a espessura da GS entre os diferentes graus de esteatose nos homens não apresentou diferença estatisticamente significante. Já no que se refere à GV, identificou-se um aumento progressivo e estatisticamente significativo de sua espessura com o aumento da esteatose.

Análise estatística

Deixou-se de lado a GS, por não ter relevância estatística, e fez-se a análise da espessura da GV através da curva ROC (Figura 2), buscando definir: (a) um ponto de corte ótimo entre pessoas sem esteatose e pessoas com esteatose simples (E1); (b) um ponto de corte ótimo entre pessoas sem risco e pessoas com risco de esteato-hepatite. Para esse último ponto, optou-se por usar como referência o conjunto das pessoas sem esteatose e com E1 em relação ao grupo que engloba as pessoas com esteatose moderada (E2) e grave (E3), de acordo com o trabalho de Shannon et al (15), que mostrou que 92% dos pacientes com E2 e E3 na US tinham esteatose de moderada a grave na biópsia e que a maioria dos pacientes sem esteatose ou com E1 na US não tinham esteatose ou tinham apenas esteatose leve na biópsia. Os resultados estão na Tabela 6.

Figura 2 – Pontos de corte ótimos para esteatose leve em mulheres (A), esteatose de moderada a grave em mulheres (B), esteatose leve em homens (C) e esteatose de moderada a grave em homens (D) pela análise da curva ROC.



tabela6

DISCUSSÃO

Considerando que tanto a prevalência da SM (3) como a prevalência da DHGNA (27) giram em torno de 20 a 25% da população geral, e que, em pacientes com DHGNA selecionados para biópsia hepática (critério: esteatose à US e valores de TGP/TGO séricos maiores do que 1,5 o nível normal em mais do que duas ocasiões, separadas por pelo menos um mês), a esteato-hepatite sem fibrose pode atingir 31,1% dos indivíduos e a esteato-hepatite com fibrose ou cirrose pode chegar a 27% dos casos (28), procurou-se estabelecer um método não invasivo e de baixo custo que auxiliasse na identificação de pacientes com maior risco de apresentar as formas evolutivas dessas doenças.

Baseando-se na acurácia da US para detectar esteatose (10,11), deve-se considerar a possibilidade de torná-la uma ferramenta inicial de screening para DHGNA mesmo em face de enzimas hepáticas normais (15). Por outro lado, considerando-se a relação da esteatose com a medida da espessura da gordura visceral (13,25), procuraram-se definir valores da espessura do tecido adiposo abdominal que pudessem distinguir a normalidade da esteatose simples e da suspeita de esteato-hepatite (14). Já foi demonstrado que o acúmulo de GV está relacionado ao desenvolvimento da esteato-hepatite e que esse acúmulo influencia continuamente as alterações histológicas na DHGNA desde o início da deposição de gordura em hepatócitos até o surgimento das alterações inflamatórias (29). Uma das vantagens da medida da espessura da gordura visceral é sua simplicidade e objetividade, permitindo esquivar-se das variáveis subjetivas da quantificação da esteatose, demasiado operador-dependente. Tanto a esteatose como a gordura visceral abdominal são correlatos independentes de risco cardiometabólico, mas as associações são mais fortes para a GV do que para a esteatose (30).

Nos 365 pacientes examinados, a espessura da GS não apresentou diferença estatisticamente relevante entre os sexos, entre os grupos etários e em relação à presença ou não de esteatose. Já a espessura da GV que, nos homens sem esteatose, não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos etários, nas mulheres mostrou aumento significativo das jovens (menos de 29 anos) para as adultas e das adultas para as idosas (mais de 70 anos). Em contrapartida, nos pacientes com esteatose a espessura da GV apresentou aumento significativo, proporcional ao grau de esteatose, tanto em mulheres como em homens.

Com o auxílio da análise da curva ROC obtiveram-se os seguintes pontos de corte:

  1. Para mulheres, espessura da GV igual ou acima de 7 cm sugere esteatose leve e espessura da GV igual ou acima de 9 cm sugere esteatose de moderada a grave com risco de esteato-hepatite e de síndrome metabólica.
  2. Para homens, espessura da GV igual ou acima de 8 cm sugere esteatose leve e espessura da GV igual ou acima de 10 cm sugere esteatose de moderada a grave com risco de esteato-hepatite e de síndrome metabólica.

O risco de esteato-hepatite com espessura da GV acima de 9 cm para mulheres e acima de 10 cm para homens levanta a possibilidade de indicação para biópsia hepática.

Esses valores praticamente se superpõem aos números obtidos por Leite et al. (23), que examinaram 422 pacientes em busca de correlação entre espessura da GV e risco cardiovascular. Seu trabalho indicou ponto de corte de 7 cm para predizer risco cardiovascular moderado para ambos os sexos, enquanto nosso estudo encontrou ponto de corte de 7 cm para mulheres e 8 cm para homens para indicar esteatose leve. O trabalho de Leite et al. ainda definiu pontos de corte de 8 cm para mulheres e de 9 cm para homens para predizer alto risco cardiovascular. Nosso trabalho estabeleceu ponto de corte de 9 cm para mulheres e de 10 cm para homens para predizer alto risco de esteato-hepatite.

Ribeiro Filho et al (24), que também fizeram um exemplar trabalho correlacionando a espessura da GV com os componentes da síndrome metabólica, examinaram 100 pacientes, mas só do sexo feminino, definindo 7 cm como o ponto de corte acima do qual as pacientes apresentam risco cardiovascular.

Quanto ao trabalho de Diniz et al (25), destinado principalmente a estudar a variabilidade interobservador do método ultrassonográfico, o fato de não ter feito distinção entre sexos e graus de esteatose põe seus valores médios obtidos para a espessura da GV (6,84 cm ± 2,38) dentro do espectro do presente estudo.

Os trabalhos anteriores a esses, referentes à avaliação da GV pela US, concentram-se praticamente na validação do exame ultrassonográfico em comparação com a TC, a RM e a antropometria. Armellini (20), por exemplo, que é a primeira referência de todos os estudos que envolvem GV e US, chegou a usar em seus trabalhos três parâmetros diferentes para medir a gordura visceral desde a linha alba: a veia esplênica, a parede anterior da aorta e a parede posterior da aorta. Atualmente se usa a parede posterior da aorta porque se acredita que os valores de espessura intra-abdominal por ela determinados são mais representativos da quantidade de gordura visceral.

Em nosso trabalho, a medida da espessura da GS não se mostrou estatisticamente relevante nem em homens nem em mulheres. Ela pode ser usada como controle de tratamento em casos individuais. Apesar da aparente disparidade entre o aumento da GV e o aumento da GS com a evolução da obesidade, a proposição de um índice para medir a relação GV/GS não encontrou relevância estatística.

A limitação deste trabalho consiste em não terem sido feitas correlações com parâmetros séricos nem com exames histológicos.

CONCLUSÃO:

Demonstrou-se a correlação entre esteatose e a medida da espessura da GV em 365 pacientes, sugerindo-se a preferência por esta última na avaliação de DHGNA, não só por sua objetividade e reprodutibilidade mas por permitir a definição de critérios quantitativos diferenciados para homens e mulheres, assim como para diferentes grupos etários, e por permitir controle de evolução de tratamento através de uma escala mais graduada.

No que diz respeito à GV, foram sugeridos, tanto para o sexo masculino como para o feminino, valores para a normalidade e valores para o risco de esteato-hepatite.

Sugere-se, ademais, que a medida da espessura da gordura visceral seja incluída nos exames de ultrassonografia abdominal de rotina, considerando-se sua praticidade e sua eficácia como preditor de esteato-hepatite e de síndrome metabólica.

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ATUALIZAÇÃO SOBRE MEDIDA DA GORDURA VISCERAL

Em 2013 publicamos um artigo na revista Radiologia Brasileira* sobre medida da gordura visceral através da ecografia baseando-nos num grupo de 365 pacientes. Em nossa prática diária continuamos, desde então, fazendo a mensuração da gordura visceral e temos agora 1.017 pacientes em nossa planilha. Com o aumento da coorte houve também uma alteração dos números de referência. Isso deveu-se a dois fatores: 1) o aumento do número de pacientes deu-se principalmente às custas das faixas etárias mais altas; 2) excluímos das médias gerais os pacientes com menos de 20 anos de idade (adolescentes têm metabolismo diferente e merecem um estudo à parte).

Embora esta atualização inclua o maior número de pacientes já reunidos na literatura especializada com este objetivo, ela ainda é parcial e faz parte de um trabalho maior que engloba também a medida da espessura das duas camadas da gordura subcutânea separadas pela fáscia de Scarpa, as quais vêm atraindo cada vez mais a atenção dos pesquisadores devido às suas propriedades metabólicas diferentes.

Como, na pesquisa, o tempo é muito mais lento que na prática médica, decidimos trazer à luz agora esta totalização para proporcionar ao nosso público-alvo, os médicos, dados estatisticamente mais precisos sobre a medida da gordura visceral, eis que baseados numa amostra bem mais ampla que a original. Seguimos a mesma metodologia do trabalho de 2013, acrescentando a divisão por décadas – em que se percebe que há aumento da espessura da gordura visceral de década para década em pessoas normais de ambos os sexos – e o agrupamento dos pacientes em dois grandes grupos etários com aproximadamente os mesmos números – dos 20 aos 49 anos e dos 50 anos em diante. Apesar disso, estamos cada vez mais convictos de que as décadas dos 40 aos 49 anos nas mulheres e dos 50 aos 59 anos nos homens possuem características particulares e riscos cardiometabólicos que eventualmente merecerão estudo isolado.

291 MULHERES NORMAIS PARA UM TOTAL DE 641 MULHERES (45%)

Idade GV (2 desvios-padrão)
10-19(9 pac) 3,85 (2,21 a 5,49)
20-29(52 pac) 4,36 (2,76 a 5,96)
30-39(44 pac) 4,62 (2,54 a 6,70)
40-49(41 pac) 4,66 (2,46 a 6,86)
50-59(57 pac) 5,45 (3,01 a 7,89)
60-69(44 pac) 5,45 (3,15 a 7,75)
>70(44 pac) 5,56 (3,12 a 8,00)
Média: 48,6 anos 4,99 (2,59 a 7,39)

 

Idade GV (2 desvios-padrão)
20-49 (média:34,2) 4,53 (2,57 a 6,49)
50-95 (média: 64,1) 5,49 (3,11 a 7,87)

 

63 pacientes femininos com esteatose 2 e 3, determinando ponto de corte de 9,8 para risco de esteato-hepatite e para risco cardiovascular.

131 HOMENS NORMAIS PARA UM TOTAL DE 376 HOMENS (35%)

Idade GV (2 desvios-padrão)
10-19(4 pac) 4,77 (2,93 a 6,61)
20-29(15 pac) 5,87 (3,67 a 8,07)
30-39(15 pac) 6,34 (3,74 a 8,94)
40-49(15 pac) 6,38 (3,70 a 9,06)
50-59(24 pac) 6,54 (3,50 a 9,58)
60-69(19 pac) 6,81 (4,71 a 8,91)
>70(39 pac) 6,81 (4,39 a 9,23)
Média: 54,5 anos  6,49 (3,87 a 9,11)

 

Idade GV (2 desvios-padrão)
20-49 (média:34,4) 6,20 (3,72 a 8,68)
50-95 (média: 67,5) 6,73 (5,46 a 9,27)

85 pacientes masculinos com esteatose 2 e 3, determinando ponto de corte de 11,08 para risco de esteato-hepatite e para risco cardiovascular.